A pressa, a escrita e a notícia
Padre Antônio Vieira nos deixou a seguinte frase: “O estilo há de ser fácil e muito natural”. Essa frase tem desafiado há muito quem envereda pelas vias do texto profissionalmente, sobretudo nos últimos tempos, em que podemos resumir a maneira como tem de escrever um jornalista numa única palavra: depressa.
Com o advento da publicação online, em nenhum outro ofício de escritor a pressão das horas é tão cruel e inevitável. O texto tem de ser informativo e preciso, além de pedir elegância de estilo. Só o jornalismo requer tudo isso, e depressa, sem que a rapidez seja desculpa válida para o erro ou a mediocridade.
A qualquer velocidade, exige-se fidelidade a três requisitos: exatidão (para não enganar o leitor), clareza (para que ele entenda o que lê) e concisão (para não desperdiçar nem o tempo dele nem o espaço do jornal).
Contudo, se isso bastasse, o jornal pareceria um enorme telegrama: conciso, claro, exato e enfadonho. A fim de que o texto escape desse trágico roteiro, não basta que o jornalista domine técnicas de redação. Devem entrar em cena o talento e a aptidão que cada um desenvolve por conta própria. Para que dê ao trato das palavras a importância que tem, o jornalista precisa entender que a preocupação com a boa escolha dos vocábulos não é apenas estética.
Analisando, por exemplo, os verbos “poder”, que indica possibilidade, e “dever”, que aponta para probabilidade, percebemos que são ambíguos, imprecisos: “pode” porque tem condições, ou “pode” por que está autorizado? “Deve” porque é quase inevitável, ou “deve” por que existe uma obrigação? Uma quantidade considerável de notícias envolve probabilidades e possibilidades — bem mais que certezas – e é preciso cuidado na seleção das palavras para não iludir o leitor.
Desconhecer o significado das palavras que usa ou seu emprego mais apropriado é obstáculo considerável para quem se propõe a informar e esclarecer. Dizer que “a data do lançamento da candidatura foi adiada”, é impropriedade, pois o lançamento é que foi adiado. Caso semelhante ocorre com “o Senado poderá votar antecipadamente”, que deveria ser “o Senado poderá antecipar a votação”.
Recentemente, li que “o estuprador escolhe bem as suas vítimas”. No mínimo, temos um advérbio (bem) mal escolhido, passando perto de sugerir aplauso à eficiência do estuprador. Seria melhor dizer que ele escolhe “cuidadosamente”. Outra notícia que não atentou ao cuidado com a palavra foi “Missa celebra 25 anos da morte de Betinho”. O verbo “celebrar” tem conotação festiva; a data triste é lembrada.
Outro ponto com o qual deve se preocupar quem escreve com o objetivo de informar é não aborrecer com informações inúteis. Em muitos casos, a insegurança na informação é mais responsável pela prolixidade que o desejo ou vício de escrever difícil; outras vezes, escreve-se demais por ignorar a expressividade e a força das próprias palavras.
Em vez de escrever “A assessoria de imprensa da Secretaria de Saúde informou”, basta dizer “A Secretaria de Saúde informou”. Poupa tempo e tinta quem escreve “Depôs na Delegacia”, em lugar de “Foi à Delegacia, onde prestou depoimento”. “Pessoas que se encontram vivendo no exterior” não são mais importantes que “pessoas que vivem no exterior”.
Há, ainda, de se ter cuidado com outra questão: palavras em desordem. Esse ponto leva a frases malfeitas, de difícil ou até de impossível compreensão, algumas por defeito de organização, outras por ambiguidade. Em certos casos, é preciso substituir a palavra; às vezes, são os elementos que estão fora de lugar – e pode ser necessário ler a sentença em voz alta para perceber onde ela desafinou. Convenhamos, isso é quase impossível na pressa com que se escreve hoje.