Português não é coisa para amador

Nas duas últimas quartas-feiras de março, tive a alegria de me reunir com publicitários, a maioria deles jovens, para falar sobre a língua portuguesa. Considero esse tipo de ação, que foi promovida pelo sindicato da categoria, essencial para a rotina dessa turma que, além de criatividade e talento, deve conhecer algumas artimanhas do nosso idioma para se valer delas em benefício próprio.

Em meu minicurso voltado para eles, recorri ao Veríssimo mais novo, o Luís Fernando, que disse, certa vez, que “a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e que deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis”. É dessa maneira que entendo que o publicitário deve “ver” a língua.

Apresentei-lhes uns textos que demonstram a riqueza e a leveza da língua, a fim de que observassem sempre as possibilidades que o português nos oferece de “brincar” com trocadilhos, duplos sentidos e ambiguidades. Os textos não são meus, circulam pela internet, sem autoria definida; merecem, todavia, a divulgação, pois: “As palavras, afinal, vivem na boca do povo. São faladíssimas”.

O primeiro, “Português não é para amador”, pode ser resumido em um parágrafo: “A diferença de doida e doída é um acento. Assento não tem acento. Assento é embaixo, acento é em cima. Embaixo é junto e em cima separado. Na sexta comprei uma cesta logo após a sesta. É a primeira vez que tu não vês. Vão tachar de ladrão se taxar muito alto a taxa da tacha. Asso um cervo na panela de aço que será servido pelo servo. Vão cassar o direito de caçar de dois pais no meu país. Por tanto nevoeiro, portanto, a cerração impediu a serração.  Para começar o concerto tiveram que fazer um conserto. Ao empossar permitiu-se à esposa empoçar o palanque de lágrimas. Uma mulher vivida é sempre mais vívida, profetiza a profetisa. Calça você bota, Bota você Calça.  Oxítona é Proparoxítona Realmente, não é para amador!”.

Outro que julgo interessante é o “Coisas de português”:  “A palavra coisa é um bombril do idioma. Tem mil e uma utilidades. É aquele tipo de termo-muleta ao qual a gente recorre sempre que nos faltam palavras para exprimir uma ideia. Coisas do português. Gramaticalmente, coisa pode ser substantivo, adjetivo, advérbio. Também pode ser verbo: o Houaiss registra a forma coisificar. E no Nordeste há coisar: Ô, seu coisinha, você já coisou aquela coisa que eu mandei você coisar?

Na Paraíba e em Pernambuco, coisa também é cigarro de maconha. Em Olinda, o bloco carnavalesco Segura a Coisa tem um baseado como símbolo em seu estandarte. Alceu Valença canta: ‘Segura a coisa com muito cuidado / Que eu chego já’. Já em Minas Gerais, todas as coisas são chamadas de trem. (menos o trem, que lá é chamado de coisa). A mãe está com a filha na estação, o trem se aproxima e ela diz: ‘Minha filha, pega os trens que lá vem a coisa’.

E no Rio de Janeiro? ‘Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça…’.  A garota de Ipanema era coisa de fechar o trânsito! Mas se ela voltar, se ela voltar, que coisa linda, que coisa louca. Coisas de Jobim e de Vinicius, que sabiam das coisas.

Coisa não tem sexo: pode ser masculino ou feminino. Coisa-ruim é o capeta. Coisa boa é a Juliana Paes. Nunca vi coisa assim! Coisa também não tem tamanho. Na boca dos exagerados, ‘coisa nenhuma’ vira um monte de coisas…

Mas a coisa tem história mesmo é na MPB. No II Festival da Música Popular Brasileira, em 1966, a coisa estava na letra das duas vencedoras: Disparada, de Geraldo Vandré: ‘Prepare seu coração pras coisas que eu vou contar…’, e A Banda, de Chico Buarque: ‘Pra ver a banda passar, cantando coisas de amor…’. Naquele ano do festival, no entanto, a coisa tava preta. E a turma da Jovem Guarda não tava nem aí com as coisas: ‘Coisa linda, coisa que eu adoro’. 

Por essas e por outras, é preciso colocar cada coisa no devido lugar. Uma coisa de cada vez, é claro, afinal, uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. E tal e coisa, e coisa e tal. Um cara cheio de coisas é o indivíduo chato, pleno de não-me-toques. Já um cara cheio das coisas, vive dando risada. Gente fina é outra coisa. (…) Se as pessoas foram feitas para serem amadas; e as coisas, para serem usadas, por que então nós amamos tanto as coisas e usamos tanto as pessoas? Bote uma coisa na cabeça: as melhores coisas da vida não são coisas. Há coisas que o dinheiro não compra: paz, saúde, alegria e outras coisitas mais. Mas, deixemos de coisa, cuidemos da vida, senão chega a morte, ou coisa parecida… Por isso, faça a coisa certa e não esqueça o grande mandamento: ‘Amarás a Deus sobre todas as coisas’”.