As lições de oratória que não aprendi com o médico

Desde o nascimento da civilização, falar bem diante de outras pessoas tem sido um desafio constante do ser humano. Isso ocorreu na Grécia e na Roma antigas, mas a habilidade de falar em público é muito valorizada desde os tempos bíblicos, e não seria diferente no cenário em que vivemos.

Nos últimos tempos, é cada vez maior o número de “escolas preparatórias de oradores”, consequência da grande procura de profissionais das mais diversas áreas, que perceberam a necessidade de melhorar para avançar na carreira. O fato é que quem lida com o público, não importa a profissão ou o tamanho desse público, terá sempre sua forma de comunicação avaliada.

A título de ilustração, trago à tona o caso de um médico a quem tive de recorrer pela primeira vez recentemente. Na primeira consulta, achei-o atencioso e gentil, além de didático. Uma semana depois, ao mostrar-lhe o exame que ele havia solicitado, perguntei se poderia gravar a sua análise, já que eram muitas informações e eu gostaria de ouvir com minha família, uma vez que fora sozinho à consulta. Resultado: o médico perdeu-se com o fato de estar sendo gravado e sequer leu o laudo atentamente para me informar que eu precisaria ser cirurgiado, o que só fiquei sabendo porque procurei outro especialista.

Um dos grandes princípios de todo grande comunicador pode ser resumido em uma única frase: “Saiba do que está falando”. Pode parecer óbvio, mas muita gente que lida com o público se esquece disso. A insegurança destrói a imagem de qualquer pessoa que se propõe a dissertar sobre algum tema, mesmo a de um médico falando para um paciente leigo na sala de um consultório.

Ainda sobre a segunda consulta, a que dão o nome de “retorno”, vale dizer que outra máxima não foi respeitada. O médico, ao tentar me explicar o laudo, simplesmente não me olhou nos olhos. Essa é a maneira mais eficaz de quebrar o elo entre quem fala e quem ouve. É preciso considerarmos que falar em público não tem a ver apenas com o som que ouvimos. Palestrantes eficazes sabem como usar estímulos visuais para dar destaque àquilo que têm a dizer. O contato visual é uma forma fundamental de estabelecer ligação. Quando você fala, são seus os olhos que envolvem os ouvintes. 

Isso vale para todas as situações. Não importa quantas pessoas estejam presentes, pois cada uma quer ter a sensação de que se está concentrado apenas nela. Enxergá-las é uma forma de convencê-las de seu interesse nelas e de que realmente deseja que aceitem o que você tem a dizer. O simples contato visual já é benéfico, pois, olhando para seu ouvinte, você consegue perceber se sua mensagem está sendo bem recebida.

Esse relato sobre a consulta também nos revela que muita gente tem medo de falar em público ou se sente desconfortável em saber que suas ideias estão sendo expostas. Em muitos casos, esse medo pode vir do próprio passado, como em uma lembrança, mesmo que subliminar, de situações de sala de aula em que a pessoa se apresentou e foi ridicularizada. Pode, ainda, ser uma preocupação com que os outros pensam ou falta de preparação. O doutor estava preparado? De certo modo, na primeira consulta, parecia que praticava a medicina há mais de 30 anos, o que ele não aparentava ter de idade, mas insisto na tese de que a gravação, mesmo que autorizada, mexeu com a tranquilidade dele. Talvez nunca tivesse passado por isso.

Com o passar do tempo, ele vai aprender que não é o que acontece conosco ao longo da vida que faz diferença; mas, sim, como reagimos a cada circusntância. Todo ser humano na mesma situação tem a possibilidade de escolher como vai reagir, e essa reação pode ser negativa ou positiva.

É famosa a história de dois garotos criados por um pai alcoólatra. Quando cresceram, cada um seguiu seu caminho. Muitos anos depois, foram entrevistados separadamente por um psicólogo que estava analisando as consequências do alcoolismo em lares destruídos. A pesquisa revelou que os dois homens eram totalmente diferentes um do outro. Um era abstêmio e levava a vida sem vícios; o outro, um alcoólatra inveterado como o pai. O psicólogo perguntou a cada um porque achava que tinha se desenvolvido daquela forma, e ambos deram a mesma resposta: “O que mais você poderia esperar de alguém que teve o pai que tive?”