Embaraços cotidianos II
As pessoas, nas relações de trabalho, reclamam uma linguagem compreensível para que se estabeleça o entendimento comum. Comunicação é isto: participação, transmissão, troca de conhecimentos e experiências. Até pelo fato de que a falta de precisão na linguagem acarreta problemas para o desempenho de tarefas e, às vezes, prejudica as relações humanas, gerando desentendimentos, discussões e redução da produtividade. Por isso, seguimos com nossa lista de embaraços cotidianos.
Um dos campões é a expressão “a partir de”, que deve ser empregada preferencialmente no sentido temporal: “O aumento do salário mínimo entra em vigor a partir do início do próximo ano”. Evite usar a expressão com o sentido de “com base em” preferindo os vocábulos “considerando”, “tomando-se por base”, “fundando-se em”, “baseando-se em”.
A palavra “ambos” significa “os dois” ou “um e outro”. Evite expressões pleonásticas “ambos os dois”. Quando for o caso de enfatizar a dualidade, prefira a expressão “todos os dois”.
O adjetivo “anexo” concorda em gênero e número (feminino/masculino e singular/plural) com o substantivo a que se refere: “Encaminho as minutas anexas”. O mesmo ocorre com os sinônimos “junto” ou “apenso”. A locução adverbial “em anexo” é invariável: “Encaminho as minutas em anexo”.
A locução “ao nível de” tem sentido de “à mesma altura”. Indica posição, local: “Natal está ao nível do mar”. Evite seu uso com o sentido de “instância”: “A decisão foi tomada em nível Ministerial”. “A nível de” constitui modismo a ser evitado.
“Através de” quer dizer “de lado a lado”, “por entre”: “Vi que você chegou através da janela”. Evite seu emprego com o sentido de meio ou instrumento. Nesse caso empregue “por intermédio de”, “por”, “mediante”, “por meio de”: Soube do caso por intermédio do secretário”.
“Enquanto” é conjunção proporcional equivalente a “ao passo que”, “à medida que”. Também valor temporal: “Enquanto o professor falava, ele prestava atenção”. Deve-se evitar a construção coloquial “enquanto que”.
“Inclusive” é advérbio que indica inclusão; opõe-se a exclusive. Evite-se seu abuso com o sentido de “até”. Nesse caso, utilize o próprio “até” ou ainda “igualmente”, “mesmo”, “também”, “ademais”.
“Nem” é uma conjunção aditiva que significa não. Evite a dupla negação “nem tampouco” e a expressão “e nem”.
É recomendável não abusar do emprego do pronome “se” como indeterminador do sujeito. O simples emprego do infinitivo já confere a almejada impessoalidade. Evite, portanto, construções como: “Para atingir-se o objetivo”, ou “Há que se evitar”. É cacoete dispensável por ser inútil.
Usam-se indiferentemente “a meu ver” e “em meu ver”. O que não se usa é o artigo nessas locuções (ao meu ver) e, de igual modo, nas expressões “a nosso ver”, “a teu ver”, “a seu ver”: “Em meu ver/A meu ver, isso constitui ingerência do Judiciário no Executivo”; “A nosso ver/Em nosso ver, o governo tomou medidas precipitadas”.
Ao usar uma palavra ou expressão, é bom certificar-se de que ela existe na língua. É o caso de “inobstante”, que não está dicionarizada, por isso deve ser evitada.
Para encerrar, outros embaraços que revelam a importância da originalidade, que denota o estilo do autor, sua maneira de dizer e exprimir ideias. Ser original é fugir dos clichês, das expressões planas, dos preciosismos desnecessários, das frases feitas. Falta originalidade nas frases: “Vimos pela presente informar…”; “Esta tem por finalidade…”; “Temos a honra de participar-lhe…”; “Firmamos protestos de apreço e distinta consideração…”; “Sendo o que tínhamos para o momento…”.