Lapidar a mensagem

Não é segredo para ninguém que o domínio da escrita exige 90% de transpiração e 10% de inspiração. Apesar disso, é cada vez mais raro que jornalistas, advogados, executivos, professores e outros profissionais que dependem dessa arte tenham um profissional especializado por perto. Era comum, há algum tempo, nos grandes jornais, a figura do especialista contratado para ler os originais, apontar erros gramaticais, incoerências, problemas de estilo.

Essa ausência, aliada à pressa alicerçada pela instantaneidade a que somos submetidos nos dias atuais, tem evitado que os textos passem pelo processo de “lapidação”, e o escritor, que deveria ser o ourives da palavra, acaba caindo nas armadilhas e artimanhas da língua.

Ainda que não se destine ao grande público, a mensagem precisa chegar às mãos dos chefes, clientes, equipe com correção, clareza e objetividade, pois, como dizia Voltaire: “Uma palavra posta fora do lugar estraga o pensamento mais bonito”. A seguir, alguns casos que podem complicar a vida de quem escreve.

Preste atenção no que vou dizer – Atenção se presta melhor ao que se vai dizer, pois atenção se usa com “a” ou “para”. Portanto, atenção aos exemplos: Prestem atenção ao que vou dizer (ou: para o que vou dizer).

A menos que não cessem as hostilidades – Ao usarmos “a menos que”, não precisamos usar “não”, pois na locução já existe sentido negativo.

Maria é a melhor profissional da empresa – Essa frase só estará correta se na empresa só houver funcionárias do sexo feminino. Caso contrário, temos de usar sempre o masculino, que é o gênero que prevalece: Maria é o melhor profissional da empresa. Ana é o profissional da empresa que mais colabora conosco.

Falta dois minutos para as seis – O verbo faltar sempre tem sujeito (no caso, dois minutos). Portanto: Quantos minutos faltam para as nove horas. Estão faltando poucos minutos para as oito horas.

Faltam ainda acabar dois alunos – O verbo faltar não é auxiliar. Por isso, usaremos: Falta ainda acabarem dois alunos. Faltava opinarem muitas pessoas. (E não: Faltavam opinar muitas pessoas.) Devendo as provas serem realizadas – Não se flexiona infinitivo que depende de gerúndio. Já foi marcada a época dos exames, devendo as provas ser realizadas no período…; As inscrições do concurso estão abertas, podendo os candidatos dirigir-se à sede da empresa. Colocar virou moda – O desejo de diversificar a linguagem ou de aderir ao que está na moda faz muitas pessoas insistirem em palavras cujo uso foi distorcido. Os termos “colocar” e “colocação” se enquadram nisso. É comum ouvir frases como Eu queria fazer uma colocação; Gostei muito da colocação do professor. Ninguém faz “colocação”, pelo menos nesse sentido.  É muito melhor trocar o termo por “exposição”, “intervenção”. “Colocar” e “colocação” devem ser usados em casos eminentemente concretos: a colocação da fechadura; colocar o livro na mesa.

Proibido entrada – O termo “proibido” será variável, quando a palavra a que ele se refere estiver determinada: Proibida a entrada de pessoas fumando; “A entrada de pessoas fumando é proibida; Proibida a permanência de pessoas fumando; “A permanência de pessoas fumando é proibida.  Nos outros casos, “proibido” fica invariável: “Proibido entrada”; “Entrada proibido”.

Os amigos confraternizaram-se – Não. O verbo “confraternizar” não é pronominal. Faça o simples:  Os amigos confraternizaram. Alunos e professores confraternizaram depois da missa.

Ela não quis vim – Desse jeito, melhor não vir mesmo. O correto é “Ela não quis vir”. “Vim” é forma do passado (Eu vim aqui ontem). Numa locução verbal, o último verbo deve vir no gerúndio ou no infinitivo: Pode vir quando quiser. Assim, pode.

Palavras-ônibus – Com amplo uso na linguagem coloquial, as palavras-ônibus são aquelas que comportam tantos significados que é impossível delimitar o que se pretende, de fato, dizer. O maior exemplo é, sem dúvida, a palavra “coisa”. No início Deus criou as coisas… e, a partir daí, “coisamos” tudo: vem cá, coisinha (para chamar alguém); traga as minhas coisas (para solicitar um material), estou coisando (para indicar uma ação), a lista é infindável. Quem diz ou escreve coisa não diz coisa com coisa.