Casos embaraçosos II

Em texto anterior, na semana passada, chamei atenção para o fato de que o domínio da língua portuguesa era competência obrigatória para profissionais de qualquer área. Reitero essa importância para quem quer manter a reputação na era digital. Afinal, a todo instante, somos, cada vez mais, pessoas públicas, mesmo que nossos nomes não saiam nos jornais, mesmo sem sermos reconhecidos na rua. Muito dessa publicidade é fornecida por nós mesmos ao interagirmos nas redes sociais.

A reputação agora é “a alma do negócio”, conforme nos assegura o jornalista Mário Rosa no livro “A reputação na velocidade do pensamento – imagem e ética na era digital”, da Geração Editorial. Ele exemplifica ao lembrar o caso de um laboratório farmacêutico, que produz remédio, mas o que vende mesmo é a confiança em tomarmos o remédio e o oferecermos àqueles de quem mais gostamos.

Fazendo uma analogia de pessoas jurídicas, como é o caso do laboratório, com as pessoas físicas, logo entendemos que elas não vendem produtos e serviços. Elas vendem confiança. O que todos vendemos é confiança, e o domínio da linguagem tem papel fundamental na aquisição dessa confiança. Basta, resguardadas as proporções, imaginarmos a credibilidade de um advogado que, diante da leitura da palavra “dolo”,  pronuncia (/dôlo/), em vez de (/dólo/), ou de alguém que anuncia o“concerto” de máquinas de lavar. Diante disso, listei mais alguns casos embaraçosos que devemos dominar para não abalar a nossa reputação e garantir a confiança de nossos interlocutores.

Preço, quantidade, medida, porção – o aumento do preço do combustível nos traz uma importante reflexão a respeito da concordância. Quando o sujeito está representado por palavras ou expressões indicadoras de preço, quantidade, medida e porção, o verbo “ser” fica no singular: “Cinco folhas por R$ 3,00 é barato”; “Dois salários é pouco”; “Dezesseis horas diárias é muito”; “Vinte quilos será demais”; “Dois terços do combinado é R$ 60,00”; “Trinta por cento de vinte é seis”.

E por falar em concordância – quando o sujeito composto terminar por um pronome indefinido resumidor (tudo, nada, ninguém, alguém, cada um, cada qual), o verbo ficará no singular: “A casa, os móveis, o jardim, tudo estava depredado”; “A doença, os escassos recursos, o cansaço, nada o impediu de viajar”; “Familiares, vizinhos, colegas de turma, ninguém deixou de se lembrar do aniversário”.

Mais de umOutro caso curioso, que foge à lógica, é o da expressão “mais de um”. O verbo deve ficar no singular se não houver ideia de reciprocidade: “Mais de um aluno conseguiu refazer a prova”; “Mais de um deputado apoiou o projeto”. Se a expressão mais de um estiver repetida, ou se for usada para indicar reciprocidade, o verbo irá para o plural: “Mais de um assessor, mais de um auxiliar foram beneficiados com a medida adotada”; “Mais de um vizinho cumprimentaram-se”; “Mais de um jogador agrediram-se”.  É ou não é estranho?

Menos de doiseis outra contrariedade à lógica: a expressão “menos de dois” leva o verbo para o plural. Dessa forma, devemos escrever “Menos de dois dias são necessários para concluir a análise”; “Sobraram menos de dois concorrentes após a primeira rodada”.

Em comemoração de/em homenagem a – usa-se a locução “em comemoração de” em referência a datas, fatos etc.; nunca a pessoas: “A Assembleia promoveu seminário em comemoração do Mês de Combate ao Suicídio”; “Será servido um coquetel em comemoração dos dez anos da empresa”. Usa-se a locução “em homenagem a” em referência a pessoas; nunca a datas e fatos: “Participou da solenidade em homenagem aos professores”; “No dia 10 de maio, foi feita uma programação em homenagem às mães”.

A menos de/há menos de – “Há menos de” encerra ideia de tempo decorrido: “Há menos de um mês, não imaginávamos o ocorrido”. Já “a menos de” é uma expressão usada para indicar distância: “Ficamos a menos de dez metros do acidente”; ou tempo futuro: “Estamos a menos de nove meses do período junino”. 

Pessoas não são comunicadas – nos meios de comunicação, são comuns frases como estas: “O deputado vai comunicar o governador da decisão”, “O governador foi comunicado da decisão pelo deputado”. Embora esse uso seja cada vez mais comum, os dicionários só registram para o verbo “comunicar” a construção “comunicar algo a alguém”. Literalmente, esse verbo significa “tornar comum”, “repartir”, “dividir”, e o que se comunica, o que se torna comum é a notícia. Para não termos problemas, é recomendável que digamos “O deputado vai comunicar  a decisão ao governador” ou “A decisão foi comunicada ao governador pelo deputado”. O verbo “comunicar” só ocorre na língua culta com a construção “comunicar algo a alguém”. Na voz passiva, portanto, pessoas não são comunicadas; mas fatos, sim.