Sem o perdão da concordância
Toda vez que alguém precisar mostrar qualificação como bom usuário da língua, será importante “não cometer erros de português”, ou melhor, não cometer desvios da norma culta. No caso da elaboração de textos escritos, principalmente em situações formais e profissionais, esse requisito é bastante necessário. Embora a presença ou não de “erros de português” ainda sirva leigamente para medir a qualidade do que se escreve, não é apenas isso que define um bom ou mau texto.
Principalmente no meio profissional – qualquer que seja ele –, ninguém pode exigir que se escreva com o talento de grandes escritores, mas pode-se esperar e cobrar que se escreva sem erros de português.
Esse fato é tão importante que, dependendo do erro que se comete, até mesmo a credibilidade do profissional pode ficar comprometida. “Se ele escreve assim, será que posso confiar em sua competência?”, dirão alguns. Há erros “imperdoáveis”, tão graves que colocam o redator em uma situação suspeita e há erros, talvez, “toleráveis”, desde que o texto esteja claro e preciso.
Qualquer falante da língua portuguesa com alguma escolarização sabe, pelo próprio uso, que substantivo e adjetivo concordam em gênero e número (camisa branca/calções azuis) e que um sujeito plural pede o verbo também no plural (meus alunos estudam português). Contudo, quando se escreve, devido à própria natureza e à variedade de construção das frases, qualquer descuido pode gerar problema de falta de concordância, e esse tipo de descuido é um daqueles imperdoáveis. O caso mais comum é o que ocorre entre o sujeito da oração e o verbo do predicado. A seguir exemplos dessa discordância.
Quando o sujeito vem após o verbo, é comum que vacilos ocorram. Na frase “Parece que não existe mais pessoas interessadas nesse tema”, é evidente a confusão. Corrigindo: Parece que não existem mais pessoas interessadas nesse tema. Fato semelhante ocorre quando outro complicador (expressão deslocada) aparece na sentença: “Segue, em anexo, os arquivos”. Provavelmente, não haveria erro se a ordem direta fosse mantida: Os arquivos seguem em anexo. Claro que há possibilidade de escrever “Seguem, em anexo, os arquivos”.
Se o sujeito for muito extenso ou se seu núcleo estiver distante do verbo, o caos se instala: “Os processos econômicos para a retomada do desenvolvimento deve demorar”. Esse tipo de erro também é agravado pela contaminação do verbo com a palavra mais próxima. Veja-se que “deve” está mais próximo de um termo no singular “desenvolvimento”. Manda a regra que o verbo concorde com o núcleo do sujeito, “processos”: Os processos econômicos para a retomada do desenvolvimento devem demorar.
Muito cuidado também requer a concordância com pronomes átonos (o, a, os, as): “As notícias falsas a fez esquecer o essencial”. Melhor ficar atento: As notícias falsas a fizeram esquecer o essencial.
Observe-se o caso de concordância dos verbos “dar, soar, bater” nas indicações de horas. Todos eles concordam com o sujeito, seja ele o número de horas (singular ou plural), seja ele o instrumento que indica as horas. Tudo muito simples: Bateram (Deram, Soaram) dez horas no relógio da escola; O relógio da escola bateu (deu, soou) dez horas.
Além de todos esses casos, há outros que merecem um alerta, pois permitem dois modos de concordância, com o verbo no singular ou no plural. Em um sujeito ligado por “ou”, deve-se prestar atenção ano sentido que se quer dar. Na frase “Você ou sua mãe poderá assinar o documento”, diz-se que somente um dos dois poderá assinar o documento. A conjunção expressa ideia de exclusão. No entanto, é possível que o verbo fique no plural, quando se quer passar a ideia de que ambos podem assinar: “Você ou sua mãe poderão assinar o documento”. A lista é longa e não acaba aqui. Continua.