A força da palavra
Há um provérbio ocidental que nos revela o seguinte: “Seja um artesão do discurso e será forte, pois a força de alguém é a língua, e o discurso é mais poderoso do que qualquer luta”. Aristóteles, considerado o pai da retórica, sabia disso. Lá no século v a.C., na Macedônia, ele foi mentor do filho do rei: o menino Alexandre, que, anos depois, quando se tornou adulto, ficou conhecido como Alexandre, o Grande.
Alexandre tinha um exército, que não era compatível com o de Dario, seu adversário. O Grande precisava conquistar territórios para ter hegemonia, mas não tinha cavalos bons, armas boas, soldados fortes e preparados. Ele não tinha nada disso, mas nunca perdeu uma batalha. Alexandre tinha o poder da retórica. E foi com os ensinamentos de Aristóteles que ele conseguiu, por meio do discurso e da fala, engajar e mobilizar seu exército. Falar bem era tão importante para o rei e para o herói quanto combater bem.
Ele sabia o nome de cada soldado e a história de cada homem. Por isso, provocava, seduzia ou intimidava, de acordo com o que sabia que funcionava com cada um dos membros do seu exército. O resultado era um time altamente motivado e engajado.
Antes de uma batalha decisiva contra o império persa, Alexandre discursou para seus soldados falando sobre a coragem dos pais e avós deles em batalhas anteriores. Isso aumentou a confiança das tropas. Os militares viram que faziam parte de uma linhagem de vencedores em situações desfavoráveis e acreditaram que também poderiam vencer.
Contudo, os apelos emocionais tinham seus defensores no mundo antigo. Cícero, grande orador romano, encorajava o uso da emoção na conclusão dos discursos. Nos tempos atuais, a persuasão emocional é utilizada praticamente em qualquer oportunidade.
Hoje vivemos a era da atenção, sendo as redes sociais as grandes culpadas desse cenário. É preciso que se traduza a palavra “culpadas” aqui, pois não significa que a era da atenção, apesar de nova, represente uma evolução. Paradoxalmente, a era da atenção é a era da distração também. Distraímo-nos com muita facilidade, quase nada segura nosso foco por mais do que alguns segundos, tanto é que vivemos uma epidemia de hiperativos com déficit de atenção. As facilidades tecnológicas foram nos tornando menos atinados, mais distraídos e menos capazes de memorizar coisas.
Voltando ao tema da força do discurso, da língua e da palavra, seria fundamental se pudéssemos ficar atentos ao estilo, isto é, à forma de dizer as coisas, e isso envolve a escolha do vocabulário e a construção das frases. Na prática, não é apenas o que você diz, mas como diz. Hoje tudo é comunicação, ou seja, tudo aquilo que se diz viraliza nas redes sociais, e as pessoas têm agido pelo impulso, na instantaneidade.
O que você fala, a resposta que você dá, a forma como você se expressa, tudo isso pode se tornar o combustível de uma explosão ou o extintor que apaga um incêndio. Ter sabedoria ao utilizar as palavras é a solução milenar para os problemas de agora. Isso é simples de entender, mas difícil de praticar. Está em Provérbios, 15,1: “A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira”.
Vejamos esta história: uma vez, um sultão poderoso sonhou que havia perdido todos os dentes. Intrigado, mandou chamar um sábio que o ajudasse a interpretar o sonho. O sábio fez um ar sombrio e exclamou: “Uma desgraça, Majestade. Os dentes perdidos significam que Vossa Alteza irá assistir à morte de todos os seus parentes”. Extremamente contrariado, o Sultão mandou aplicar cem chibatadas no sábio agourento. Em seguida, mandou chamar outro sábio. Este, ao ouvir o sonho, falou com voz excitada: “Vejo uma grande felicidade, Majestade. Vossa Alteza irá viver mais do que todos os seus parentes”. Exultante com a revelação, o Sultão mandou pagar ao sábio cem moedas de ouro. Um cortesão que assistira a ambas as cenas vira-se para o segundo sábio e lhe diz: “Não consigo entender. Sua resposta foi exatamente igual à do primeiro sábio. O outro foi castigado e você foi premiado”. Ao que o segundo sábio respondeu: “A diferença não está no que eu falei, mas em como falei”.