Despreocupados e aflitos

Alguém já disse, em tom irônico, que as pessoas se dividiam em dois grupos básicos, quando o assunto é domínio do idioma: os despreocupados e os aflitos. Estes jamais deixam de se preocupar com a correção e a exatidão da língua que usam, valendo-se de dicionários e gramáticas tão logo dúvidas apareçam. Já aqueles não têm consciência da linguagem que utilizam, não carregam sentimento de remorso ou culpa pelos desvios linguísticos que cometem.

A primeira categoria, os despreocupados, pode ser encontrada em qualquer área de atuação. Enquadram-se nela aqueles que não se incomodam em pronunciar [gratuíto], em vez de “gratuito”; [rúbrica], em vez de “rubrica”, maltratando a prosódia e desprezando a ortoépia. Ou, ainda, os que fecham os ouvidos à metafonia, fenômeno no qual as palavras mudam o timbre da vogal tônica no plural:  caroço [carôço] passa a caroços [caróços]; ovo [ôvo], ovos [óvos]. Isso também acontece com “corpo”, “imposto”, “forno”, “povo”.

A segunda categoria, os aflitos, está convencida de que escrever e falar sempre de maneira clara e organizada permite ao leitor/ouvinte entender exatamente o que se quer dizer. Reconhece que nada do que está na linguagem é indiferente ao sentido, considerando sempre o espaço social de onde é emitido o discurso. 

Um exemplo claro que diferencia bem as duas categorias está no grau de atenção que se dedica à leitura de placas e avisos, principalmente porque esse gênero textual está muito presente em nosso cotidiano. Veja-se o caso deste texto, colocado numa placa na área comum de um clube da cidade: “Não é permitido o acesso as quadras de crianças e visitantes (não matriculados)”.

Um leitor despreocupado não diferencia o “a” artigo de um “a” preposição ou pronome. Para ele, não há mudança de sentido entre “Chegou a noite” (anoiteceu) e “Chegou à noite” (alguém chegou durante a noite). Sendo assim, o despreocupado não perceberia a ausência do sinal indicativo de crase após a palavra “acesso” na citada placa.

O leitor aflito não só atentaria a essa ausência do sinal como também destacaria algo mais grave: o sentido confuso provocado pelo mau posicionamento das palavras na frase. Da maneira como a sentença está escrita, entende-se que: 1- há quadras destinadas a crianças e a visitantes (não matriculados); 2- não é permitido o acesso a essas quadras.

 Todavia, todo o contexto está configurado para um único sentido: proibir o acesso dos pequenos e de quem não tem esse direito por não estar matriculado às quadras. Uma simples alteração na ordem das palavras bastaria para sanar a falta de clareza: não é permitido o acesso de crianças e visitantes às quadras. 

Esse episódio da placa no clube é um, entre tantos, que se pode constatar diariamente em vários veículos de comunicação, em reuniões de trabalho ou em uma audiência pública. Talvez isso se explique por causa de uma herança do ensino da gramática, que era usada por seus estudiosos como instrumento para aterrorizar os estudantes. 

O método de ensino – seja qual for ele – deve permitir a qualquer estudioso da língua conhecer seu uso em diferentes contextos de interação verbal e de circulação na mídia. Se expressar-se em português com clareza e correção é uma das maiores dificuldades dos brasileiros, não vai ser aterrorizando com regras gramaticais que se vai atrair os “despreocupados”. 

É necessário tornar a aula de língua portuguesa uma conversa agradável, cujo objetivo principal seja conhecer e empregar, com adequação, diferentes linguagens, aperfeiçoando o domínio na comunicação oral e escrita. Só assim “despreocupados” e “aflitos” darão lugar aos “interessados” na reflexão e no conhecimento prático, os quais farão uso da língua como instrumento de integração social.