Em função do mesmo

Uma longa tradição escolar acostumou as pessoas a vigiar a escrita e a dar menos atenção à fala, por isso muita gente pensa que fala da mesma forma que escreve. Os textos falados podem tirar partido da situação de fala de várias maneiras, por exemplo, dispensando a necessidade de descrever os objetos e pessoas que estão presentes na atenção dos interlocutores.

Além disso, os textos tipicamente falados são planejados à medida que são produzidos, por isso o mais comum é encontrar neles um grande número de reformulações sucessivas e sempre parciais de um mesmo conteúdo: uma mesma informação que foi apresentada inicialmente de forma incompleta ou inexata vai sendo reapresentada em seguida de maneira mais pertinente, num processo de correções, acréscimos e reformulações que não tem a ver com as sentenças bem-acabadas e totalmente explícitas.

Quando produzimos um texto escrito podemos pensar previamente sua estrutura em partes, podemos decidir em que ordem essas partes serão dispostas, podemos avaliar formulações alternativas. Ou seja, deslizes gramaticais não são tolerados.

Como ilustração, vamos recorrer à palavra “mesmo”, que está entre as mais maltratadas da língua.  Como ela exerce diferentes funções no texto, é preciso distinguir os vários usos de “mesmo” e quais as condições para que o vocábulo se flexione ou fique invariável.

Quando significa idêntico ou igual, “mesmo” varia normalmente: O mesmo garoto (os mesmos garotos, a mesma garota, as mesmas garotas) voltou aqui esta manhã. / Todos tinham o mesmo medo (os mesmos receios, a mesma preocupação, as mesmas inquietações) diante da morte. 

A situação que leva ao maior número de erros é aquela em que “mesmo” vem depois de um substantivo ou pronome pessoal e equivale a próprio ou própria. Observemos os exemplos: A aluna mesma (a própria aluna) preparou a sala de aula. Estaria, portanto, errado escrever: “A aluna mesmo” preparou a sala de aula. Veja mais alguns casos: Eles pensaram consigo mesmos (consigo próprios) e não consigo mesmo.  Eles mesmos (eles próprios). 

E há casos em que mesmo não varia? Há. Quando significa até, de fato ou realmente: Os funcionários pensaram mesmo (até) em pedir demissão. / As estudantes trouxeram mesmo (realmente) o livro. / O amigo veio mesmo (de fato) ao seu encontro. / Os municípios recorrerão mesmo (realmente, de fato) ao governo estadual. 

É inadequado o uso de “mesmo” com artigo para substituir substantivo ou pronome, em frases como: A menina voltou de viagem hoje e “a mesma” fará o vestibular amanhã. No caso, o pronome ela (que nem seria necessário, na verdade) pode perfeitamente substituir a mesma. Veja outro exemplo: A empresa vai definir a premiação, ou seja, como os funcionários poderão participar “da mesma”. A contração “dela” resolveria o problema: … como os funcionários poderão participar dela. Um terceiro exemplo: Os diretores da empresa reuniram-se na semana passada e na segunda-feira os funcionários conhecerão as decisões “dos mesmos”. Veja como dizer: … e na segunda-feira os funcionários conhecerão as suas decisões ou as decisões deles.

Para finalizar, uma locução danificada pelo mau uso: “em função de”, que só poderia ser usada para indicar dependência ou finalidade. Repare nos exemplos: O técnico armava o time para jogar em função do adversário (dependência). / O patriarca vivia em função da família (finalidade). / Agia sempre em função dos seus objetivos (finalidade).  Atualmente, no entanto, ela aparece, na quase totalidade das vezes, num sentido que não tem: o de por causa de, em razão de, em consequência de, em virtude de, graças a ou por. Nesses casos, deve ser substituída por uma dessas opções. Assim: O acidente ocorreu “em função das” (o certo: por causa das) más condições da estrada. / O jogo não terminou “em função da” (em consequência da) violência em campo. / Foi promovido “em função da” (graças à) nova política da empresa.