O importante é não confundir
Na língua portuguesa, há palavras que apresentam semelhanças de natureza diversa: na escrita, como é o caso de “a fim” e “afim” ou na pronúncia, por exemplo: “conserto” e “concerto”. Há, ainda, aquelas que, apesar de bem diferentes na escrita e na pronúncia, apresentam semelhanças semânticas sutis, apenas perceptíveis em contextos mais amplos.
Se, por um lado, a troca de uma palavra por outra compromete a comunicação, criando situações embaraçosas; por outro, quando se conhece o verdadeiro significado e o emprego mais adequado dessas palavras e expressões, a comunicação entre as pessoas torna-se mais clara, direta e perfeita.
Por isso, conhecer as sutilezas semânticas que envolvem o vocabulário da nossa língua é um dos meios para alcançar bons resultados na comunicação profissional e pessoal. A seguir, arrolamos algumas dessas palavras em ordem alfabética.
A/PARA – As duas preposições se usam com verbos de movimento, mas “a” indica uma ida de retorno rápido. Assim, “Vou a São José do Mipibu” exprime ida para retorno breve, sem a intenção de lá ficar dias, meses, anos. O uso de “para” indica demora no lugar, longa estada; indica disposição de ficar. Logo, “Vou para são José do Mipibu” expressa ideia de ida para não mais voltar ou de ida para demorar; manifesta a clara intenção de fixar residência na cidade potiguar. Desse modo, vamos à praia, ao cinema, à igreja. No sentido de recolher-se, também usamos “ir para”: “Vou para a cama”.
ABAIXO (EMBAIXO)/DEBAIXO – Abaixo (ou embaixo) se usa para um corpo que está num lugar inferior, ainda que por cima não haja outro corpo: “O índice de popularidade do governador veio abaixo, mas seu índice de popularidade já estava lá embaixo”. É “embaixo” que se emprega em contraposição a “em cima”: Enquanto a filha colocava o guardanapo em cima dos pratos; a mãe vinha e o punha embaixo”. Também é “abaixo” que se usa quando há ideia de movimento: “O barco desapareceu rio abaixo”. “Debaixo” sempre estará um corpo em relação à situação de outro corpo: “Refiro-me à prateleira debaixo”. Às vezes, quando seguida da preposição “de”, confere ideia de sujeição: “Criou os filhos debaixo de muita luta”. Vale lembrar que se grafa “em cima” separado e “embaixo”, junto.
AÇÃO/ATO – “Ação” é o processo de fazer alguma coisa; é o que é expresso por um verbo ativo: “ação de acampar”, “ação de julgar”. “Ato” é algo já feito ou processado: “ato de pensar”, “ato de julgar”. “Ação” e “Ato” não podem ser confundidos porque o primeiro termo se relaciona com um agente (que pratica a ação), já o segundo relaciona-se com um paciente (que sofre a ação). Na frase “O julgamento do juiz”, julgamento é a ação de julgar, pois o juiz julga, pratica a ação de julgar; já em “O julgamento do réu”, julgamento é o ato, pois o réu é julgado, sofre o julgamento.
CÉLEBRE/ILUSTRE – “Célebre” é que tem boa fama e é digno de elogio, por sua perfeição na área em que atua ou atuou: “O célebre poeta Vinicius de Morais”. “Ilustre” é insigne por seus relevantes méritos pessoais, por suas ações esclarecidas ou por seu distinto nascimento: “O ilustre Duque de Caxias”. Logo, pode alguém ser ilustre sem ser célebre.
CESSAR/INTERROMPER – “Cessar” é suspender; enquanto “interromper” é fazer cessar, sugerindo a ideia de prosseguir: “A polícia cessou as buscas sobre o caso”; “Interrompeu-se a viagem por causa do defeito do carro”.
CONJETURA/CONJUNTURA – “Conjetura” é inferência ou julgamento baseado em evidência incompleta ou equivocada; é juízo precipitado, adivinhação, suposição: “Formularam conjeturas acerca das próximas eleições”. “Conjuntura” é situação resultante da confluência de circunstâncias: “Como a conjuntura não era favorável, ele não quis tocar no assunto delicado”. Significa, ainda, oportunidade: “Naquela conjuntura não se podia reivindicar aumento de salários”.