Refine seu vocabulário
Muita leitura e um dicionário sempre à mão na hora de escrever são as principais dicas para quem deseja refinar o vocabulário. Eis um exemplo prático de como um vocabulário extenso pode ajudar: em 2010, lá se vai mais de uma década, o jornalista William Bonner recebeu o prêmio “Melhores do Ano da TV Globo” na categoria jornalismo. Ao ser perguntado sobre qual era o sabor daquele troféu, especialmente após substituir um dos maiores ícones do jornalismo brasileiro – o apresentador Cid Moreira –, Bonner respondeu enfaticamente: “Eu não substituí o Cid, eu o sucedi. Seria impossível substituí-lo”. Os verbos “substituir” e “suceder” podem, a princípio, parecer quase sinônimos. No entanto, para Bonner, a opção por “suceder” foi muito mais feliz. “Suceder” soa mais natural que “substituir”; pois este é muito mais apropriado para uma lâmpada do que para uma pessoa. Pequenas sutilezas como essa fazem toda a diferença na comunicação.
É importante ressaltar a modificação entre “refinar” e “rebuscar”. O primeiro conceito está muito mais próximo de “lapidar”, trabalhar para escolher as palavras que melhor exprimem a mensagem desejada. Já o segundo significa “florear, sofisticar sem necessidade”. Não faz sentido em um jantar familiar dizer “Por obséquio, passe-me o sal”. Note que, no exemplo de William Bonner, ele não usa rebuscamento. No entanto, ele procura a palavra exata para exprimir a mensagem.
A seguir, alguns exemplos de frases em que é possível optar por um vocabulário mais refinado e preciso, provocando mudanças de sentido com apenas uma palavra trocada: A sala “cabe” vinte pessoas; A sala comporta vinte pessoas. Eu “tenho” cinco convites para esse setor; Eu disponho de cinco convites para esse setor. Suas observações foram “passadas” para o gerente; Suas observações foram encaminhadas ao gerente. Os documentos “têm” informações confidenciais; Os documentos contêm informações confidenciais. “Puseram” um aviso no painel; Afixaram um aviso no painel. A atendente me passou informações imprecisas; A atendente me forneceu informações imprecisas.
É atribuído a Luis Fernando Veríssimo um texto antigo, denominado “Papo furado”, que trata de uma discussão entre duas pessoas sobre o uso de palavras parecidas. A confusão logo se estabelece na dúvida entre “iminência” e “eminência”. “Somos todos iminentes, monsenhor. Vivemos num eterno devir, sempre as vésperas de alguma coisa, nem que seja só o próximo segundo. Na iminência do que virá, seja o almoço ou a morte. A beira do nosso futuro como um precipício. A iminência é o nosso estado natural. Pois o que somos nós, todos nós, se não expectativas?”, diz uma personagem, que ainda pergunta: “Eminência, iminência, que diferença faz uma letra?”. “Uma letra pode mudar tudo. Um emigrante não é um imigrante”, rebate a outra personagem.
A última afirmação não deixa de ser verdadeira, por isso a melhor atitude de quem escreve é pegar a primeira redação e fazer muitos cortes e substituições. Convém combinar dois critérios: usar as palavras mais simples e comuns e, entre duas dessas, escolher a mais curta. É fato que nem sempre se encontra uma palavra mais simples e mais curta para substituir. Nesse caso, deve-se optar pelo mais simples e mais conhecido, mesmo que seja mais longo. O simples e conhecido facilita uma leitura mais rápida.
Nossa língua é muito rica, portanto, é preciso escolher o vocabulário com cuidado. Afinal, há palavras para tudo. “Afirmar” é mais incisivo do que “contar”. “Gritar” é mais agressivo do que “afirmar”, por exemplo. Para quem não consegue refinar o vocabulário, até um versinho popular, como “Batatinha quando nasce espalha ramas pelo chão”, fica rebuscado: “Na eventualidade da ocorrência de um processo energético de brotamento vegetativo, caracteriza-se por movimentos aleatórios de expansão horizontal de suas ramificações, sobre o solo, nas mais diversas direções, a espécie Solanum tuberosum”.